As mudanças climáticas têm uma espécie de neutralidade cruel: o céu desaba igual sobre a cidade. Só que a cidade não é igual. Quando a chuva vem, as águas encontram primeiro quem mora nas encostas sem contenção, nas margens de rio sem saneamento, nas periferias sem drenagem. Não é o clima que escolhe suas vítimas — é a história que a gente construiu.
Como engenheiro ambiental, eu poderia falar apenas de vazões, taludes e coeficientes de escoamento. Mas seria uma mentira técnica confortável. A conta fecha em outra direção: os desastres ambientais no Brasil são, acima de tudo, um problema de justiça racial.
Os números não mentem
O que chamamos de racismo ambiental não é uma abstração sociológica. Ele está documentado em dados oficiais. O IPEA apontou que, em 2022, pessoas negras correspondiam a 67% da população residente em áreas de risco ambiental no país. Em 2018, estimava-se que cerca de 70% das vítimas de desastres eram negras. No diagnóstico de Ipojuca (PE), 69% dos habitantes em áreas de risco geológico eram pretos ou pardos.
A enchente que devastou o Rio Grande do Sul em 2024 escancarou o padrão: mais de 163 mortos, 2,3 milhões de afetados e todas as 147 comunidades quilombolas do estado impactadas pelas inundações. Todas. Não há acaso que produza um resultado desses.
E por que isso acontece?
Porque o risco não é distribuído ao acaso. Ele é depositado. Ao longo de décadas, o mesmo processo que negou moradia digna, saneamento e infraestrutura à população negra empurrou essa população para os terrenos que ninguém queria: encostas instáveis, várzeas inundáveis, margens de córregos canalizados pela metade. A cidade formal ficou no alto, seca e segura. A cidade periférica ficou onde a água e a terra insistem em cobrar a conta.
Desastre “natural” não existe
Por isso, como engenheiro, recuso o termo “desastre natural”. O evento meteorológico pode ser natural — a tragédia nunca é. Uma chuva intensa só vira tragédia onde falta drenagem, onde o lixo entope o bueiro, onde a casa foi erguida em área de risco porque não havia alternativa. A vulnerabilidade é produzida socialmente, e no Brasil ela tem cor, endereço e história.As comunidades tradicionais e ribeirinhas sofrem uma dupla penalização.
São as que mais dependem do território para existir — pescar, extrair, cultivar, manter a memória — e são as que menos recebem proteção quando o território adoece. A seca que seca o rio seca a fonte de renda, a alimentação e a identidade ao mesmo tempo. E ainda assim, quando o desastre chega, são as primeiras a ouvir que deveriam “sair da área”, como se sair de lá fosse uma escolha e não um exílio.
A solução técnica existe; falta a justiça
E aqui está o que me tira do sono como profissional: a solução técnica já existe. Sabemos mapear áreas de risco, construir sistemas de drenagem sustentável, recuperar margens com zonas de amortecimento, projetar contenção de encostas, garantir moradia segura com planejamento urbano que respeite o território. O conhecimento de engenharia não é o gargalo.
O gargalo é político. Saneamento, moradia e infraestrutura seguem sendo distribuídos na ordem inversa da necessidade. Enquanto isso, o clima aquece e torna esses erros históricos cada vez mais letais e mais caros — para todos nós, aliás. A conta da injustiça não fica só na periferia; ela volta na forma de perdas econômicas bilionárias, sobrecarga do sistema público e cidades inteiras paradas.
Enfrentar o racismo ambiental não é uma pauta lateral da agenda climática. É o coração dela. Reduzir emissões sem redistribuir proteção é administrar o privilégio daqueles que têm para onde fugir. Justiça climática é, antes de tudo, decidir que ninguém fica para trás quando a água sobe — que as mesmas mãos que constroem o risco participem de desfazê-lo, com direito ao território, à escuta e à infraestrutura que sempre lhes foram negadas.
A chuva vem igual para todos. Nossa responsabilidade é fazer com que deixe de ser igual apenas no céu.
Gessuelyton Mendes de Lima
Eng. Ambiental, Florestal e Seg. do Trabalho
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