João Gabriel desapareceu em uma propriedade rural de Araucária e foi encontrado em um biodigestor. Menos de três semanas depois, Tiago desapareceu em uma área rural de Rio Verde, em Goiás, e foi localizado em um tanque de dejetos de suínos. Os dois tinham apenas cinco anos e eram crianças com Transtorno do Espectro Autista.
Há notícias que, para quem as acompanha apenas pela tela do celular, já são difíceis de assimilar. Para quem esteve no local, acompanhou as buscas, conversou com pessoas envolvidas e viu de perto a esperança dar lugar ao silêncio, algumas histórias permanecem.
Foi impossível para o Canal Araucity receber, neste domingo (16), a notícia da morte de uma criança de cinco anos em Rio Verde, no sudoeste de Goiás, sem imediatamente voltar algumas semanas no tempo.
Mais precisamente para o início da tarde de 26 de julho de 2026, em Araucária.
Naquele domingo, João Gabriel Ferreira dos Santos, de apenas cinco anos, desapareceu de uma propriedade rural do município.
O Canal Araucity esteve entre os primeiros veículos de comunicação a chegar ao local. Acompanhamos praticamente toda a mobilização, do início das buscas aos momentos finais daquela operação. Foram horas acompanhando bombeiros, policiais, guardas, voluntários e familiares enquanto uma única esperança unia todos que estavam ali: encontrar João Gabriel com vida.
Dois dias depois, na terça-feira (28), essa esperança terminou da maneira mais dolorosa possível.
João Gabriel foi encontrado sem vida dentro de um biodigestor existente na propriedade, a poucos metros da residência onde estava com a família. Segundo informações divulgadas à época pelo Corpo de Bombeiros, a estrutura ficava aproximadamente 70 metros da casa e continha água contaminada.
Agora, menos de três semanas depois, uma história assustadoramente semelhante aconteceu a mais de mil quilômetros de Araucária.
Tiago, também com cinco anos
Na noite de sábado (15), uma criança desapareceu em uma propriedade rural de Rio Verde, em Goiás.
Era Tiago Oliveira, também de cinco anos.
Assim como João Gabriel, Tiago era uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O desaparecimento mobilizou imediatamente familiares e equipes de emergência.
O Corpo de Bombeiros Militar de Goiás foi acionado por volta das 19h e iniciou as buscas na região de granjas localizada às margens da GO-174. Durante a madrugada, as equipes fizeram buscas por terra e utilizaram inclusive um drone equipado com câmera térmica. A Polícia Militar também participou da operação.
Havia, entretanto, uma preocupação especial dentro daquela propriedade.
Tanques utilizados para armazenar dejetos de suínos.
Locais considerados de alto risco pelas próprias equipes de busca.
Na manhã de domingo (16), por volta das 5h28, veio a notícia que ninguém gostaria de receber.
Tiago foi encontrado sem vida dentro de um desses tanques. O corpo ficou sob responsabilidade da Polícia Técnico-Científica, e o caso será investigado pela Polícia Civil. Segundo informações iniciais divulgadas pela polícia, até aquele momento não havia indícios de crime.
Duas histórias separadas por quilômetros, próximas demais nas circunstâncias
É difícil ignorar as coincidências.
Em Araucária (PR), João Gabriel:
- tinha cinco anos;
- era uma criança com TEA;
- desapareceu em uma propriedade rural;
- mobilizou uma grande operação de buscas;
- foi procurado também com recursos tecnológicos e equipes especializadas;
- e acabou localizado sem vida em uma estrutura destinada ao tratamento de resíduos orgânicos da propriedade.
Em Rio Verde (GO), Tiago:
- também tinha cinco anos;
- também era uma criança com TEA;
- também desapareceu em uma propriedade rural;
- também mobilizou forças de segurança e equipes especializadas;
- também foi procurado com auxílio de tecnologia, incluindo drone com câmera térmica;
- e também foi encontrado sem vida em uma estrutura relacionada aos resíduos da criação de suínos.
Até mesmo o calendário parece tornar a coincidência mais difícil de compreender.
João Gabriel desapareceu em um domingo, 26 de julho.
Tiago foi encontrado em um domingo, 16 de agosto.
Entre os dois episódios, apenas 21 dias.
Para Araucária, uma notícia que faz uma ferida recente voltar a doer
Para muitos araucarienses, talvez a notícia de Rio Verde pudesse ser apenas mais uma tragédia ocorrida a centenas de quilômetros daqui.
Para quem acompanhou o caso João Gabriel, não é.
As imagens imediatamente remetem àquela propriedade rural de Araucária.
Às viaturas chegando.
Aos bombeiros entrando e saindo da mata.
Aos drones.
Aos cães.
Aos voluntários.
À movimentação incessante das equipes e, principalmente, à expectativa que permanecia enquanto João Gabriel ainda era considerado desaparecido.
A operação realizada em Araucária chegou a mobilizar mais de 150 pessoas diretamente, entre bombeiros, policiais, guardas, voluntários e equipes especializadas. Foram empregados drones, cães de busca, mergulhadores, sonar e outros equipamentos.
O Canal Araucity acompanhou aqueles dias de muito perto.
E talvez justamente por isso seja tão difícil olhar para o que aconteceu agora em Goiás sem lembrar de João.
Quem esteve naquela propriedade sabe que, enquanto uma criança está desaparecida, cada barulho, cada movimentação diferente e cada retorno de uma equipe cria uma nova expectativa.
Durante horas, tudo gira em torno de uma pergunta:
“Onde ele está?”
Em Araucária, essa pergunta atravessou três dias.
Em Rio Verde, atravessou uma madrugada.
As respostas, infelizmente, foram semelhantes.
O laudo que Araucária ainda espera
A impressionante semelhança com o caso registrado em Rio Verde também faz retornar uma pergunta que, quase três semanas após o fim das buscas por João Gabriel, Araucária ainda não conseguiu responder oficialmente: o que, de fato, provocou a morte do menino?
O corpo de João Gabriel foi encontrado no dia 28 de julho e encaminhado para exames no Instituto Médico Legal (IML). A perícia é considerada uma das peças fundamentais da investigação, justamente porque poderá auxiliar a Polícia Civil a esclarecer as circunstâncias da morte da criança.
Na ocasião, o secretário de Estado da Segurança Pública do Paraná, Hudson Leôncio Teixeira, chegou a indicar uma expectativa de aproximadamente dez dias para a conclusão do laudo.
O prazo mencionado, porém, passou.
Nesta segunda-feira, 17 de agosto, 20 dias após João Gabriel ter sido encontrado, o documento ainda não havia sido apresentado à Polícia Civil.
E não se trata de um documento secundário dentro da investigação.
Desde o início, a Polícia Civil deixou claro que nenhuma hipótese seria descartada e que o resultado dos exames periciais seria fundamental para compreender como ocorreu a morte.
Enquanto isso, permanecem perguntas que acompanham o caso desde aquele 28 de julho.
O que exatamente aconteceu com João Gabriel? Qual foi a causa definitiva da morte? E quando o laudo que poderá ajudar a responder essas perguntas finalmente chegará às mãos dos investigadores?
A tragédia ocorrida agora em Rio Verde faz Araucária inevitavelmente lembrar de João Gabriel.
Mas, por aqui, além da dor e das lembranças daqueles três dias de buscas, ainda existe uma investigação aguardando uma resposta técnica fundamental para que essa história possa ser completamente esclarecida.
João Gabriel e Tiago
Araucária ainda não esqueceu João Gabriel.
É cedo demais para isso.
Menos de três semanas separam aquela terça-feira em que as buscas terminaram em uma propriedade rural do município deste domingo em que outra família, agora em Goiás, recebeu uma notícia terrivelmente parecida.
Dois meninos.
Dois estados.
Duas propriedades rurais.
Duas grandes mobilizações.
A mesma idade.
O TEA presente nas duas histórias.
E dois locais destinados a resíduos de atividades rurais como cenário dos desfechos.
Coincidências que, quando colocadas lado a lado, impressionam e entristecem.
Para nós, do Canal Araucity, o caso ocorrido em Rio Verde inevitavelmente trouxe de volta aqueles dias acompanhando as buscas por João Gabriel.
E talvez exista uma última semelhança entre essas histórias que nenhuma estatística consegue mostrar.
Em Araucária, durante aqueles dias, centenas de pessoas que sequer conheciam João torceram para que ele voltasse para casa.
Em Goiás, aconteceu novamente.
Desta vez, o nome era Tiago.
O desejo era exatamente o mesmo.
E, infelizmente, o desfecho também.
Por Felipe Eugênio Vecchietti | Canal Araucity.






