Município ocupa a 7ª posição nacional entre cidades com mais de 100 mil habitantes, mas especialistas alertam que números de registros policiais também são influenciados pelo acesso à denúncia e pela capacidade da rede de proteção.
Araucária aparece em uma posição preocupante no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Considerando os dados referentes a 2025, o município registrou uma taxa de 84,4 casos de estupro e estupro de vulnerável para cada 100 mil habitantes, ocupando a 7ª posição entre as cidades brasileiras com população igual ou superior a 100 mil habitantes.
Araucária é ainda a única cidade da Região Sul presente entre as dez primeiras colocadas.
O ranking é liderado por Boa Vista (RR), com taxa de 110,8 casos por 100 mil habitantes, seguida por Ariquemes (RO), com 102,6, e Sinop (MT), com 91,2. Araucária aparece logo depois de Dourados (MS), que apresentou índice de 84,8.
O número chama atenção e não pode ser minimizado. Entretanto, a interpretação do ranking exige cuidado. A própria análise apresentada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que uma taxa elevada de registros policiais não necessariamente corresponde, na mesma proporção, a uma incidência real maior de violência sexual.
Ranking mede violência ou capacidade de denunciar?
Essa talvez seja a principal questão levantada pelos próprios dados.
O Anuário afirma que o número de estupros registrados mede simultaneamente a incidência da violência e a capacidade da sociedade e do Estado de detectá-la.
Isso ocorre porque o estupro permanece como um dos crimes com maior subnotificação.
O Fórum cita a Pesquisa Nacional de Vitimização da Senasp, realizada em 2012, que estimou que apenas 7,5% das vítimas de ofensa sexual comunicaram o fato à polícia. Outras estimativas, construídas a partir de dados da saúde, apontam que os registros policiais poderiam captar aproximadamente 10% das ocorrências de estupro.
Portanto, comparar municípios apenas pela quantidade de registros pode produzir uma interpretação incompleta.
Uma cidade na qual a vítima encontra delegacia acessível, atendimento especializado, acolhimento, serviços de saúde, Conselho Tutelar, assistência social e confiança para procurar as autoridades pode registrar proporcionalmente mais ocorrências do que outra onde a violência existe, mas permanece escondida.
O próprio Anuário faz o alerta de maneira expressa: taxas menores não devem ser automaticamente interpretadas como menor incidência de violência sexual. Segundo o estudo, poucos registros também podem refletir maiores barreiras à denúncia, menor acesso aos serviços de atendimento e proteção ou menor confiança nas instituições responsáveis pelo acolhimento das vítimas.
Então Araucária é realmente a 7ª cidade com mais estupros do Brasil?
Não é possível fazer essa afirmação dessa maneira.
O que os dados permitem afirmar é que Araucária apresentou, em 2025, a 7ª maior taxa de registros policiais de estupro e estupro de vulnerável entre os municípios brasileiros com pelo menos 100 mil habitantes analisados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Isso é diferente de afirmar que Araucária seja necessariamente a sétima cidade onde proporcionalmente mais estupros efetivamente acontecem.
A diferença é fundamental.
O próprio Fórum explica que mudanças na disponibilidade dos serviços de atendimento e denúncia, funcionamento das delegacias, presença de unidades especializadas e distribuição territorial desses equipamentos podem interferir diretamente na quantidade de casos que chegam às estatísticas oficiais.
Nesse contexto, surge uma hipótese importante para a realidade local: parte da posição ocupada por Araucária pode estar relacionada não apenas à violência existente, mas também à capacidade das vítimas, familiares e instituições de romperem o silêncio e levarem os casos às autoridades.
Essa hipótese, entretanto, precisa ser tratada como hipótese. O Anuário não apresenta dados específicos que permitam concluir que a posição de Araucária decorra diretamente de uma maior confiança das mulheres nas forças de segurança locais.
Uma diferença que chama atenção no mapa brasileiro
Outro elemento torna a presença de Araucária ainda mais peculiar.
Das dez cidades do ranking, oito estão na Amazônia Legal. As únicas exceções são Dourados, no Mato Grosso do Sul, e Araucária, no Paraná.
O próprio Fórum destaca essa característica e observa que vários municípios presentes no ranking estão inseridos em regiões com características territoriais específicas, como grandes fluxos de pessoas, expansão de atividades extrativistas e agropecuárias, presença de populações vulneráveis e grandes eixos de circulação.
O estudo ressalta, porém, que essas características não explicam isoladamente as taxas registradas.
Araucária, portanto, aparece praticamente como um ponto fora da curva dentro do ranking nacional.
Paraná também apresentou queda nos registros
Há outro dado que merece atenção.
Enquanto Araucária aparece entre os municípios com as maiores taxas do país, o Paraná esteve justamente entre os estados que apresentaram as maiores reduções de registros entre 2024 e 2025.
Segundo o Anuário, 21 das 27 unidades da Federação apresentaram redução, sendo que Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul tiveram as maiores quedas em números absolutos. O estudo afirma que a redução nacional foi fortemente influenciada justamente pela diminuição dos registros nos três estados da Região Sul.
No recorte envolvendo vítimas mulheres, o Paraná passou de 7.072 registros em 2024 para 5.899 em 2025, com redução de 17,1% na taxa.
Isso torna o resultado de Araucária ainda mais relevante para investigação e acompanhamento das autoridades locais.
Crianças e adolescentes são maioria entre as vítimas
O levantamento nacional também revela uma realidade especialmente grave.
Dos 84.388 registros de estupro e estupro de vulnerável ocorridos no Brasil em 2025, 64.990 foram classificados como estupro de vulnerável e 19.398 como estupro. Assim, 77% dos registros envolveram estupro de vulnerável, demonstrando que crianças e adolescentes permanecem como as principais vítimas da violência sexual no país.
Nos registros gerais analisados pelo Fórum, 93,3% das vítimas de estupro eram do sexo feminino. Nos casos de estupro de vulnerável, meninas e adolescentes representaram 85,6% das vítimas registradas.
Um número que não deve servir para estigmatizar Araucária
A posição de Araucária precisa acender um alerta, mas não pode ser utilizada isoladamente para classificar o município como um dos lugares mais perigosos do país para mulheres.
O dado demonstra que existe um volume proporcionalmente elevado de violência sexual chegando ao conhecimento das autoridades, realidade suficientemente grave para exigir atenção permanente do poder público.
Ao mesmo tempo, justamente por se tratar de um crime marcado por enorme subnotificação, o número também pode refletir a capacidade da rede de proteção de identificar casos e a disposição das vítimas ou de terceiros em denunciá-los.
No estupro de vulnerável, por exemplo, o próprio Anuário explica que o registro depende frequentemente da identificação da violência por familiares, escolas, serviços de saúde e demais integrantes da rede de proteção. Já entre vítimas adultas, o registro depende em maior medida da decisão da própria vítima de procurar as autoridades.
Por isso, o resultado de Araucária abre duas perguntas igualmente importantes: por que tantos casos de violência sexual estão ocorrendo ou sendo identificados no município? E quanto desse número também representa uma rede que consegue fazer situações antes silenciosas chegarem às autoridades?
Responder essas perguntas exige aprofundar os dados locais: número absoluto de ocorrências, idade das vítimas, proporção de estupros de vulnerável, relação entre vítima e agressor, locais das ocorrências, evolução histórica dos registros em Araucária e quantidade de denúncias que partiram da rede de saúde, educação, assistência social ou diretamente das vítimas.
Sem essas informações, qualquer conclusão definitiva seria precipitada.
O ranking nacional é grave e exige respostas. Mas talvez exista uma interpretação ainda mais importante por trás dele: em crimes caracterizados pelo silêncio e pela subnotificação, registrar mais também pode significar que mais vítimas estão conseguindo ser ouvidas.
Isso não diminui a violência revelada pelos números. Pelo contrário. Mostra a necessidade de fortalecer ainda mais os mecanismos que permitem identificar os crimes, acolher as vítimas, responsabilizar os agressores e, principalmente, impedir que novos casos aconteçam.
Por Felipe E. Vecchietti com informações do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026.






